Bioembryo - Biotecnologia da reprodução animal

Cadastre-se e receba nossas novidades!

Artigos

Clonagem Comercial de Bovinos: Aplicações e Desafios
Por: Felipe Perecin

A técnica de transferência nuclear de célula somática, mais conhecida como clonagem, consiste na produção de animais geneticamente idênticos, ou seja, animais que possuem exatamente o mesmo DNA. De maneira figurativa, embora o processo de clonagem não envolva a preservação do material genético citoplasmático do animal doador, os clones e o animal que foi clonado se assemelhariam a gêmeos idênticos com idades distintas. ver comentarios

Clique para ampliar

Felipe Perecin
Nos últimos anos, o avanço das pesquisas na área de clonagem animal, aliada ao maior entendimento da técnica e de suas limitações, permitiu que a clonagem animal deixasse os centros de pesquisa e passasse a ser oferecida como uma opção a criadores que têm a intenção de maximizar a exploração genética de alguns animais ou garantir a preservação genética de indivíduos com características especiais.

Atualmente há diversas empresas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, que atuam no mercado de clonagem animal. Neste mercado, a maioria das atividades concentra-se na espécie bovina, embora já existam animais clonados de outras espécies, como eqüinos, caprinos, ovinos e suínos. É difícil precisar o número de animais clonados já produzidos por estas empresas e por institutos de pesquisa, no entanto, uma estimativa realizada em 2004 apontava 1500 bovinos clonados nascidos. Sem dúvida, este número vem crescendo desde então, com a participação de centros de pesquisa e empresas brasileiras. No país, até o final de 2006, cerca de 24 clones bovinos já haviam sido produzidos comercialmente e entregues com sucesso aos seus proprietários.

Neste ano, o ?Food and Drug Administration? (FDA) ? órgão americano que regulamenta e assevera a biosseguridade de alimentos e medicamentos ? atestou com base em uma série de estudos que o consumo de carne e leite provenientes de animais clonados não apresenta risco à saúde humana. Essa informação pode refletir em um aumento na demanda da clonagem comercial nos próximos anos, se for aliada a avanços tecnológicos que permitam a utilização em larga escala da técnica.

Outros estudos demonstram que os animais clonados, tanto machos como fêmeas, apresentam desempenho zootécnico semelhante aos de animais não clonados, com taxas de crescimento e índices produtivos e reprodutivos similares aos animais gerados pelas técnicas tradicionais de reprodução. Da mesma forma, a progênie dos animais clonados é saudável, o que permite que os clones sejam utilizados eficientemente como reprodutores.

A técnica de clonagem inicia-se com a coleta de um fragmento de tecido, usualmente uma biópsia da pele, do animal a ser clonado. A biópsia é encaminhada a um laboratório de clonagem, onde é processada para dar início ao cultivo celular. Após o estabelecimento das linhas de cultivo celular do animal, as células são congeladas e armazenadas em nitrogênio líquido. Para a realização do processo de clonagem propriamente dito, as células são descongeladas, novamente cultivadas e transferidas para oócitos receptores previamente maturados e enucleados. O processo de enucleação do oócito receptor consiste na remoção de todo o material genético (DNA) nuclear, garantindo que apenas o DNA nuclear do animal a ser clonado esteja presente nos indivíduos gerados.

O oócito receptor sem núcleo e a célula do animal a ser clonado são fundidas através de pulsos elétricos. Em seguida, tratamentos químicos, conhecidos como ativação, propiciam as condições necessárias para que o oócito, agora contendo o DNA do animal a ser clonado, inicie o desenvolvimento, transformando-se num zigoto e ao término de uma semana, em um embrião apto a ser transferido para uma vaca receptora sincronizada dando início a uma gestação.

Na espécie bovina a clonagem é uma poderosa ferramenta para acelerar os resultados em programas de melhoramento genético. Por conta da menor prolificidade dos bovinos em relação a outras espécies domésticas, os programas de melhoramento genético nesta espécie requerem maior intervalo de tempo para atingir os resultados desejados. A clonagem, por permitir intensa multiplicação dos animais geneticamente superiores, possibilita acelerar o progresso genético e aumentar a eficiência dos programas de melhoramento, aumentando a influência dos animais excepcionais no rebanho. Evidentemente, a clonagem de animais elite deve ser associada a outras biotécnicas reprodutivas, como fertilização in vitro e inseminação artificial, para que a variabilidade genética dentro do rebanho e maior ganho genético entre gerações seja garantida.

Além da possibilidade de acelerar os programas de melhoramento, atualmente a maior parte dos pecuaristas procura pelos serviços de clonagem em laboratórios de biotecnologia de bovinos movidos pelas oportunidades que o mercado de genética de bovinos oferece. A clonagem dos animais de elite permite maximizar a produção e venda sêmen, embriões e de animais de elite, e conseqüentemente os ganhos do pecuarista.

Também, há grande demanda pelos serviços de estocagem de material genético (células). O estabelecimento e armazenamento de linhagens celulares é o primeiro passo da clonagem, que por sua vez é a única ferramenta disponível capaz de recuperar um animal em caso de morte ou no caso de doenças e acidente que abreviem sua vida reprodutiva, como por exemplo, touros que deixaram de produzir sêmen após ferimento nos testículos ou vacas que deixaram de produzir embriões por afecções na tuba uterina. Uma vez armazenadas, as linhagens celulares podem ser descongeladas a qualquer tempo, novamente cultivadas e multiplicadas em laboratório para dar início ao processo de produção de um novo indivíduo clonado. Assim, a clonagem permite não somente reparar os prejuízos financeiros do pecuarista, como também recuperar a genética perdida.

A clonagem pode ter também aplicações de ordem sanitária. O processo de clonagem elimina algumas doenças infecciosas ou permite a execução de medidas sanitárias adequadas nas receptoras e nos animais após o nascimento. Tendo em vista a existência de diversas barreiras sanitárias à comercialização de animais ou de seus produtos, a clonagem pode trazer novas oportunidades de negócios aos produtores.

A disseminação da clonagem como ferramenta reprodutiva ainda encontra desafios na eficiência e no custo da técnica. A menor capacidade dos embriões clonados no estabelecimento de prenhezes e geração de animais nascidos, em comparação aos embriões gerados naturalmente ou produzidos por fertilização in vitro, o alto investimento inicial para instalação de um laboratório de clonagem, bem como os gastos inerentes ao seu funcionamento, que incluem equipe técnica especializada e o uso de insumos importados, elevam o custo da clonagem e limitam sua aplicação a um número pequeno de animais. Por estas razões a clonagem comercial ainda permanece restrita a exemplares de alto valor comercial ou zootécnico, usualmente comprometidos com a produção e venda de sêmen e embriões.

No Brasil, questões de ordem legal ainda limitam o emprego da clonagem. Embora não seja proibida, não existe ainda regulamentação da técnica no país. Todavia, há um projeto de lei em trâmite no Senado Nacional para a regulamentação da clonagem animal no país (Projeto de Lei do Senado nº 73 de 2007, de autoria da Senadora Kátia Abreu ? PFL/TO). Além disso, as principais associações de criadores ainda não elaboraram um conjunto de normas ou critérios para o registro dos animais clonados, o que gera um ambiente de incertezas para os criadores dispostos a investir na técnica.

Por fim, existe a expectativa por parte de pesquisadores, criadores e profissionais que trabalham com a técnica, que muitos dos desafios à clonagem animal acima descritos sejam vencidos nos próximos anos, tornando a técnica mais eficiente, rentável e acessível.

* Felipe Perecin é Médico Veterinário formado pela FCAV/UNESP-Jaboticabal, Doutor em Reprodução Animal pela FCAV/UNESP-Jaboticabal e Pós-doutorando da FZEA/USP-Pirassununga



Rua Henrique Savi, 5-86 - CEP 17012-205 - Vila Universitária, Bauru - SP
Fone: (14) 3214-4272 / 3214-4272 / (14)9.9123-5440 What - financeiro@bioembryo.com.br - 2017 ® Bioembryo
Desenvolvido por ZR Midia Soluções Interativas